Desde que o fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso) passou a dominar a pauta legislativa e as redes sociais, o Brasil se vê diante de um dilema estrutural.
A proposta de reduzir a jornada semanal de 44 para 36 horas sem redução salarial não é apenas uma mudança de rotina, mas uma alteração profunda na engrenagem econômica do país.
De um lado, trabalhadores e sindicatos defendem a medida como um avanço civilizatório necessário para a saúde mental e a convivência familiar. De outro, o setor produtivo alerta para o impacto direto nos custos operacionais, especialmente em serviços e no comércio, onde a presença física é indispensável.
O custo da hora e o risco do repasse
A redução de carga horária proposta representa, na prática, uma elevação no valor da hora trabalhada.
Segundo análises econômicas, o custo da mão de obra pode encarecer em até 22%. Para pequenas e médias empresas que operam com margens estreitas, o equilíbrio financeiro é frágil.
O receio de especialistas é que esse aumento gere um “efeito cascata”:
- Inflação: Repasse do aumento de custos para os preços finais ao consumidor.
- Informalidade: Migração de postos de trabalho CLT para contratos precários.
- Substituição: Aceleração da automação para reduzir a dependência de mão de obra humana.
O “nó” da produtividade brasileira
O ponto central que trava o avanço da medida é a baixa produtividade nacional. Dados da Conference Board mostram que o Brasil está estagnado há 30 anos. Atualmente, o país ocupa a 78ª posição em um ranking de 131 nações, ficando atrás de vizinhos como Uruguai, Argentina e Chile.
Diferente de países como Noruega e Dinamarca, que adotam jornadas reduzidas com alto desempenho, o Brasil ainda lida com gargalos infraestruturais, burocracia excessiva e baixa qualificação profissional.
Sem o aumento da eficiência, a redução da jornada corre o risco de se tornar um aumento de custo sem contrapartida de geração de riqueza.
O fator renda
Um fenômeno observado em países que reduziram a jornada é o chamado “duplo emprego”. Sem o aumento do poder de compra real, muitos trabalhadores podem usar o tempo livre para buscar “bicos” ou atividades extras.
Assim, o objetivo de proporcionar mais descanso acabaria sendo substituído pela busca por complementação de renda, mantendo o indivíduo sobrecarregado.