quinta-feira,
19 de fevereiro de 2026

Estes desempregados podem ser obrigados a fazer trabalho comunitário

Proposta na Alemanha quer exigir serviços comunitários de quem recebe auxílio-desemprego e gera debate jurídico e político no país

Uma proposta apresentada pelo novo ministro-presidente da Saxônia-Anhalt, Sven Schulze, abriu um amplo debate na Alemanha.

A ideia prevê que pessoas que recebem o Bürgergeld, principal auxílio-desemprego do país, prestem serviços comunitários para manter o benefício.

A medida é defendida por setores conservadores como forma de reforçar a responsabilidade individual, mas especialistas apontam obstáculos legais e dúvidas sobre sua eficácia.

O que prevê a proposta

Sven Schulze, membro da CDU e recém-eleito líder regional até o fim de 2025, defendeu a iniciativa em entrevista ao jornal Bild am Sonntag. A proposta é que beneficiários do Bürgergeld realizem tarefas úteis para municípios e comunidades locais.

“Existem serviços que podem ser prestados e que se justificam pelo dinheiro recebido. Por exemplo, trabalho voluntário na comunidade, varrer folhas ou limpar a neve no inverno. Por que pessoas saudáveis que estão desempregadas não podem fazer essas coisas também?”

Segundo o jornal Die Zeit, o político pretende testar a medida inicialmente na Saxônia-Anhalt, no leste do país, e criticou entraves burocráticos do governo federal para ampliar a proposta nacionalmente.

Como funciona o Burgergeld? 

O Bürgergeld substituiu o antigo Hartz IV em 2023 e é o principal apoio financeiro para quem perdeu o seguro-desemprego e não possui renda suficiente.

O benefício cobre despesas básicas como:

  • alimentação
  • aluguel
  • vestuário

O valor médio é de cerca de 563 euros por mês por pessoa, aproximadamente R$ 3.550, enquanto o beneficiário busca recolocação no mercado de trabalho.

O papel dos chamados “empregos de um euro”

A proposta também envolve tornar obrigatórios os chamados “empregos de um euro”, atualmente voluntários. Esses postos são temporários e subsidiados pelo Estado para atividades de interesse público, como manutenção de parques ou apoio social.

Nesses casos, o governo adiciona entre € 1 e € 2,60 por hora ao salário mínimo. Na prática, funcionam como complemento ao auxílio recebido.

A proposta retoma uma pauta defendida desde 2023 por Carsten Linnemann, secretário-geral da CDU, que sugere exigir serviços comunitários de quem recebe o benefício há mais de seis meses.

Obstáculos legais e constitucionais

A principal barreira para tornar a medida obrigatória está na Constituição alemã.

O Artigo 12 garante a liberdade de escolha profissional e proíbe trabalho forçado, exceto em situações de emergência pública ou por decisão judicial. Por isso, obrigar desempregados a trabalhar contra a vontade exigiria mudanças constitucionais.

Dúvidas sobre eficácia da medida

Estudos também colocam em debate os resultados práticos da proposta. Em 2023, o Instituto IAB avaliou os empregos de um euro e concluiu que eles podem oferecer rotina e estrutura para pessoas afastadas do mercado.

Por outro lado, o instituto apontou impacto negativo para quem tem chances de reinserção profissional, já que o tempo dedicado aos trabalhos comunitários pode reduzir a busca por emprego estável.

Divisão política e testes locais

A CDU argumenta que a iniciativa poderia aliviar orçamentos municipais e valorizar o trabalho. Já opositores afirmam que a proposta estigmatiza beneficiários e ignora problemas como falta de qualificação.

Cidades como Barnim e Greiz já testam versões locais da medida, embora enfrentem contestações judiciais por ilegalidade.

Partidos progressistas, como SPD e Verdes, classificam a proposta como demagogia e defendem mais investimento em educação e cuidados infantis. Também criticam a criação de empregos precários que pagariam cerca de 80 centavos por hora.

O debate continua em nível nacional, impulsionado pelo fortalecimento da CDU/CSU após as últimas eleições federais.

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Aécio de Paula
Aécio de Paula
Jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e pós-graduado em Direitos Humanos pela mesma instituição. Atua na produção, edição e apuração de conteúdos sobre política, economia, sociedade e cultura, com experiência em redações e portais de notícia.

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