segunda-feira,
6 de abril de 2026

Regra do INSS no governo Bolsonaro impulsionou Banco Master

Mudança no INSS durante o governo Bolsonaro permitiu cartão consignado que impulsionou o Banco Master e elevou contratos rapidamente

Uma mudança nas regras do INSS permitiu a criação de um modelo de cartão consignado que impulsionou as operações do Banco Master entre 2022 e 2025. 

A alteração foi implementada poucos dias após um pedido formal da instituição financeira para operar o produto.

Mudança nas regras abriu espaço para novo cartão

Em março de 2022, ainda durante o governo de Jair Bolsonaro, o então presidente do INSS, José Carlos Oliveira, assinou uma instrução normativa que passou a permitir operações com cartão consignado de benefício.

A norma alterou regras que estavam em vigor desde 2008. No entanto, não detalhou como esse tipo de operação deveria funcionar.

Com base nessa autorização, o Banco Master solicitou ao INSS a inclusão do cartão consignado de benefício em seu acordo de cooperação técnica com o órgão.

Nova norma foi publicada após pedido do banco

O banco enviou um ofício ao INSS em 7 de junho de 2022 pedindo a inclusão do produto. Dezesseis dias depois, uma nova instrução normativa foi publicada no Diário Oficial da União.

Essa segunda norma passou a detalhar o funcionamento do cartão consignado. O documento foi assinado por Larissa Mora, que ocupava a presidência substituta do órgão naquele momento.

Na sequência, em 13 de julho, foi assinado o termo aditivo que incluiu o produto no acordo entre o INSS e o Banco Master.

Expansão acelerada do Credcesta

O cartão consignado, conhecido como Credcesta, oferecia serviços adicionais, como desconto em farmácias e auxílio-funeral. O produto se tornou um dos principais motores de crescimento do banco.

Inicialmente voltado a servidores públicos, o modelo foi ampliado para:

  • Aposentados
  • Pensionistas
  • Beneficiários do BPC

Dados do INSS, compilados pela Dataprev, mostram que os contratos cresceram de 104,8 mil em 2022 para 2,75 milhões em 2024.

O produto se expandiu por 24 estados e 176 municípios.

Irregularidades e investigações

Documentos do acordo entre o INSS e o banco indicam que as regras criadas em 2022 permitiram a operação do Credcesta ainda naquele ano, com crescimento acelerado nos anos seguintes.

A atual gestão do INSS considera que houve irregularidades na forma como o produto operou.

O acordo de cooperação técnica entre o órgão e o banco vigorou entre 2020 e 2025 e não foi renovado após suspeitas de fraudes investigadas pela Polícia Federal.

Declarações e posicionamentos

Em depoimento no Senado, José Carlos Oliveira afirmou que o INSS não tinha capacidade de fiscalizar os acordos firmados e que os processos ocorriam de forma “mecânica”.

Já a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que o banco atuou conforme as regras estabelecidas pelo INSS:

“incluindo os requisitos de formalização, identificação do contratante e comprovação de consentimento”.

Prisões e suspeitas envolvendo o banco

O diretor do banco, Luiz Antonio Bull, foi preso pela Polícia Federal em novembro de 2025, na mesma operação que atingiu Vorcaro.

As investigações apontavam suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito ao BRB, envolvendo valores de R$ 12,2 bilhões.

Vorcaro voltou a ser preso preventivamente em abril e negocia acordo de delação premiada com autoridades.

Além disso, a Polícia Federal aponta que José Carlos Oliveira teria participação no esquema de desvio de recursos de aposentadorias, com recebimento de propina.

Entendimento atual do INSS sobre o modelo

O atual presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, afirmou que o modelo operou de forma irregular.

“Quando se faz um [contrato de] Credcesta, ele começa com o empréstimo pessoal. Havendo margem, esse crédito pessoal migra para o crédito consignado. Na visão do INSS, isso é irregular”, disse.

“Nosso aposentado e pensionista têm de assinar um crédito consignado do INSS com todas as cláusulas e informações específicas.”

O órgão decidiu não renovar o acordo com o banco.

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Aécio de Paula
Aécio de Paula
Jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e pós-graduado em Direitos Humanos pela mesma instituição. Atua na produção, edição e apuração de conteúdos sobre política, economia, sociedade e cultura, com experiência em redações e portais de notícia.

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