Vice de Flávio Bolsonaro é acusado de poupar empresário ligado à fraude do INSS
Relatório de Alfredo Gaspar pediu o indiciamento de 216 pessoas, mas deixou de fora um empresário apontado como figura central de um grupo suspeito de desviar dinheiro de aposentados. Documentos analisados pelo Intercept indicam movimentações financeiras milionárias e a compra de um helicóptero.

Wilson Roberto Gomes na CPMI do INSS é o foco de uma reportagem do Intercept Brasil que questiona a ausência do empresário no relatório apresentado pelo deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), escolhido como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro. Conhecido como “Xixa”, Gomes aparece em documentos relacionados ao grupo Golden Boys, investigado por descontos indevidos em aposentadorias e pensões.
Publicado em 15 de outubro de 2026, o levantamento aponta que o nome do empresário constava em informações financeiras examinadas pela comissão parlamentar. Mesmo assim, Gaspar não pediu seu indiciamento no documento final, que recomendou a responsabilização de 216 pessoas e acabou rejeitado pelos integrantes da CPMI.
Por que Alfredo Gaspar deixou Wilson Gomes fora do relatório?
O relatório de Alfredo Gaspar tinha cerca de 4 mil páginas e foi apresentado ao final de uma investigação parlamentar que durou sete meses. A CPMI buscava identificar os responsáveis pelos descontos não autorizados nos benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que causaram prejuízos a aposentados e pensionistas.
Apesar de ter sido citado durante os trabalhos da comissão, Wilson Gomes não apareceu entre os nomes cujo indiciamento foi solicitado pelo relator. Segundo o Intercept, documentos disponíveis à CPMI incluíam registros de movimentações bancárias consideradas suspeitas e informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
A reportagem também destaca que Gaspar havia questionado nominalmente um investigado sobre sua relação com Gomes. Em uma sessão realizada em 4 de dezembro de 2025, o deputado perguntou a Américo Monte Júnior qual era sua relação com o empresário. Monte Júnior, porém, não respondeu, após obter um habeas corpus que lhe garantia o direito de permanecer em silêncio.
O relatório de Gaspar foi rejeitado pela CPMI em março de 2026. A comissão encerrou os trabalhos sem aprovar um parecer final.
Quem é Wilson Roberto Gomes, chamado de “big boss”?
Wilson Roberto Gomes é apontado por integrantes investigados no caso como uma figura importante do grupo Golden Boys, chamado de “big boss”, expressão em inglês que significa “chefão”. Conforme a apuração do Intercept, documentos e registros cruzados pela reportagem ajudaram a identificar Gomes como a pessoa mencionada dessa forma pelos integrantes do grupo.
A reportagem afirma que os Golden Boys teriam desviado cerca de R$ 700 milhões de aposentadorias. O empresário também teria atuado como intermediário entre integrantes do grupo e José Carlos Oliveira, que presidiu o INSS entre novembro de 2021 e março de 2022 e, depois, assumiu o Ministério do Trabalho e da Previdência no governo de Jair Bolsonaro.
Gomes tem uma condenação por lavagem de dinheiro para um traficante de drogas. A pena foi fixada em cinco anos e quatro meses de prisão, mas não chegou a ser cumprida porque a punição prescreveu após a demora no andamento do processo.
Segundo o Intercept, o empresário também é pai de Felipe Macedo Gomes, apontado como um dos integrantes do núcleo investigado. Em relato divulgado anteriormente pelo jornal O Estado de S. Paulo, um dos empresários afirmou que Wilson teria negociado o primeiro acordo do grupo com o INSS diretamente com Oliveira.
Essas informações fazem parte do contexto reunido pela reportagem, mas não significam, por si só, que todas as pessoas citadas tenham sido condenadas por envolvimento na fraude previdenciária.
Movimentações de quase R$ 10 milhões e compra de helicóptero
Um dos principais pontos levantados pelo Intercept são as movimentações bancárias atribuídas a Wilson Gomes durante o período investigado. Entre dezembro de 2024 e junho de 2025, quase R$ 10 milhões passaram por sua conta bancária. Desse total, mais de R$ 4,2 milhões teriam vindo diretamente de contas ligadas aos Golden Boys.
No mesmo período, Gomes repassou pelo menos R$ 5 milhões à empresa responsável pela venda de um helicóptero Robinson R66. A compra foi registrada em 10 de fevereiro de 2025.
A reportagem relaciona a negociação a uma gravação de câmera de segurança feita em 22 de maio de 2025. No vídeo, dois integrantes apontados como participantes do grupo conversam sobre Wilson Gomes e afirmam que ele teria recebido R$ 7 milhões do esquema. Um deles demonstra surpresa com a possibilidade de terem financiado um helicóptero para o chamado “big boss”.
O Intercept também relata ter obtido uma fotografia que ajudaria a confirmar a identidade da pessoa chamada dessa forma. Em uma publicação de Dia dos Pais, Wilson aparece ao lado de familiares, acompanhado da expressão “big boss”.
A aeronave foi bloqueada por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em outubro de 2025, segundo documentos da Agência Nacional de Aviação Civil consultados pela reportagem.
Filho de Wilson Gomes também aparece em documentos financeiros
O Intercept aponta que Ygor Buttarello Gomes, outro filho do empresário, também foi citado em informações do Coaf encaminhadas aos integrantes da CPMI. Assim como o pai, ele não foi incluído por Alfredo Gaspar entre os nomes cujo indiciamento foi solicitado.
De acordo com a reportagem, entre novembro de 2024 e maio de 2025, Ygor movimentou em sua conta bancária um valor quase 50 vezes superior à renda mensal declarada. Parte dos recursos teria vindo de contas ligadas aos Golden Boys.
Ygor também foi condenado em um processo relacionado à circulação de cédulas falsas. Além disso, o Intercept informa que ele é dono de uma joalheria registrada no mesmo prédio onde funcionava uma das associações investigadas por descontos indevidos em benefícios previdenciários.
A ausência dos nomes de Wilson e Ygor no relatório de Gaspar é um dos pontos centrais da apuração jornalística. O deputado, por sua vez, sustenta que não havia elementos suficientes para pedir o indiciamento dos dois.
Como o grupo Golden Boys atuava nos descontos do INSS?
Segundo a reportagem, o grupo é investigado por utilizar quatro associações de fachada para realizar descontos em contracheques de aposentados e pensionistas. As entidades citadas são Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev, Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (Andapp) e Associação de Amparo Social ao Aposentado e Pensionista (Aasap).
O primeiro acordo de cooperação técnica do grupo com o INSS foi assinado em 9 de agosto de 2022, durante o governo Bolsonaro, quando José Carlos Oliveira comandava o Ministério do Trabalho e da Previdência. O instrumento permitia o desconto de mensalidades associativas diretamente nos benefícios.
A suspeita investigada era de que as autorizações dos aposentados tivessem sido falsificadas. Outros três acordos foram assinados durante o governo Lula, antes de uma auditoria identificar irregularidades.
O Intercept também cita uma nota técnica assinada naquele período pelo então presidente do INSS que eliminou a exigência de renovação periódica das autorizações de desconto. A medida teria facilitado a continuidade das cobranças indevidas.
Além disso, um relatório da Polícia Federal aponta que Oliveira teria recebido R$ 100 mil em propina de uma associação, com recursos supostamente desviados dos aposentados. O ex-ministro chegou a usar tornozeleira eletrônica, mas a medida foi revogada pelo ministro André Mendonça no início de setembro de 2026.
As suspeitas contra Oliveira e os demais envolvidos são distintas e devem ser avaliadas conforme as provas de cada investigação.
Caso do INSS também envolve disputas políticas
A reportagem do Intercept situa a omissão dos nomes no contexto da disputa política em torno da fraude previdenciária. A campanha de Flávio Bolsonaro tem tentado associar o escândalo a Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O texto também menciona outras conexões envolvendo integrantes da família Bolsonaro e pessoas investigadas. Segundo o ICL Notícias, uma empresa da família Bolsonaro divide um endereço comercial em Brasília com firmas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Já o UOL noticiou que Flávio Bolsonaro teria compartilhado uma conta bancária com o advogado Willer Tomaz, apontado como suspeito de lavagem de dinheiro relacionado ao caso.
Essas referências fazem parte do contexto político apresentado pelo Intercept e não comprovam, por si só, participação de Flávio Bolsonaro na fraude dos descontos previdenciários.
O que Alfredo Gaspar diz sobre a ausência dos empresários?
Em nota enviada por sua assessoria, Alfredo Gaspar negou ter protegido Wilson Gomes ou qualquer outro investigado. O deputado afirmou que o PT e seus aliados teriam impedido o aprofundamento das apurações ao barrar requerimentos e pedidos de quebra de sigilo.
Gaspar também declarou que não encontrou elementos probatórios mínimos suficientes para justificar o indiciamento de Wilson e Ygor. Segundo ele, o fato de os nomes não constarem no relatório não impede que a Polícia Federal e o Ministério Público continuem investigando.
O deputado afirmou ainda que seu parecer foi elaborado com critérios técnicos e que solicitou o indiciamento das pessoas cuja participação nos crimes pudesse ser comprovada. Ele também criticou o relatório alternativo preparado por integrantes governistas, que não chegou a ser votado e, conforme a reportagem, igualmente não citava Wilson Gomes.
A defesa de Wilson, por sua vez, negou que o empresário tenha mantido relação com as associações investigadas ou recebido valores delas. Em nota, afirmou que referências feitas por terceiros não comprovam envolvimento em irregularidades e que já apresentou documentos ao STF para demonstrar a regularidade de seu patrimônio.
A defesa também ressaltou que a condenação anterior por lavagem de dinheiro se refere a um processo antigo, sem relação com os fatos atualmente investigados, e que a punibilidade foi extinta judicialmente. José Carlos Oliveira negou ter recebido vantagens financeiras ou interferido irregularmente na celebração dos acordos com o INSS.
O caso, portanto, reúne suspeitas financeiras, documentos analisados pela imprensa e versões divergentes dos envolvidos. A ausência de Wilson e Ygor no relatório de Alfredo Gaspar é questionada pela reportagem, enquanto o deputado sustenta que não havia provas suficientes para pedir o indiciamento dos dois.
