A proposta do governo de liberar até 20% do saldo do FGTS para ajudar trabalhadores a quitar dívidas não deve comprometer o fundo de forma imediata.
Ainda assim, especialistas apontam que esse tipo de medida pode afetar o crescimento do patrimônio ao longo do tempo.
Avaliações de representantes e ex-gestores do FGTS, com base em balanços financeiros, indicam que decisões semelhantes adotadas nas últimas duas décadas já reduziram o ritmo de expansão do fundo.
Fundo já enfrenta perda de fôlego
O colchão de liquidez do FGTS, usado para garantir compromissos, chegou a diminuir em 2023 e ainda não voltou ao nível anterior, de R$ 125 bilhões.
Segundo essa análise, o cenário pode se agravar no longo prazo. Em uma situação econômica mais adversa após 2030, o fundo pode voltar a perder volume, o que sinaliza dificuldades para atender cotistas e manter investimentos em áreas como habitação e infraestrutura.
Liberação para dívidas pode se tornar permanente
Outro ponto de preocupação é a possibilidade de esse tipo de uso se tornar recorrente. Especialistas citam como exemplo o saque-aniversário, que começou como alternativa e acabou incorporado de forma permanente ao sistema.
A proposta atual prevê a retirada de cerca de R$ 7 bilhões das contas dos trabalhadores. Esse valor seria utilizado como garantia para empréstimos com juros menores, com a expectativa de descontos de até 90% sobre as dívidas. Os detalhes ainda estão sendo negociados com instituições financeiras.
Histórico de mudanças no FGTS
Criado como uma poupança voltada ao trabalhador, o FGTS também financia projetos de habitação, infraestrutura e saneamento.
Ao longo dos anos, no entanto, o uso do fundo foi ampliado em diferentes momentos:
- Durante a recessão iniciada em 2015, passou a ser mais utilizado fora de suas finalidades originais
- Uma medida permitiu o uso do saldo como garantia para empréstimos consignados, o que resultou no bloqueio de mais de R$ 100 bilhões
- Em 2017, saques de contas inativas liberaram cerca de R$ 44 bilhões na economia
- Em 2019, foi criado o saque-aniversário, que já retirou mais de R$ 192 bilhões do fundo
- Na pandemia, o saque emergencial distribuiu R$ 37,8 bilhões a cerca de 60 milhões de trabalhadores
Essas decisões aumentaram o acesso ao dinheiro no curto prazo, mas também impactaram a capacidade de financiamento do fundo.
Pressão adicional com novas regras
Em 2024, o Supremo Tribunal Federal determinou que o FGTS passe a ter correção pela inflação, acima do modelo anterior. A mudança elevou a remuneração das contas, mas também reduziu os ganhos líquidos do fundo.
Com isso, especialistas avaliam que novas liberações, como a proposta atual, aumentam a pressão sobre a sustentabilidade do sistema.
O que observar a partir de agora
Os detalhes da proposta ainda estão em negociação com bancos. A expectativa do governo é reduzir o endividamento das famílias, especialmente em um cenário de alto comprometimento de renda.
Para o trabalhador, é importante acompanhar como essas mudanças podem afetar tanto o acesso ao crédito quanto o rendimento do saldo ao longo do tempo.